domingo, 27 de março de 2011

Mathias

            No aniversário de oito anos, Mathias ganhou de sua avó russa uma esfera de vidro transparente. Dentro havia uma casinha com chaminé e alguns pinheirinhos. Quando o menino balançava a esfera de vidro começavam a cair sobre a casinha pequenos flocos de neve, cobrindo o telhado e os galhos dos pinheiros de branco.
            - É assim que acontece na minha terra, Mathias. Dizia a avó ao menino. – Todos os anos, no natal, nós saímos de casa para fazer grandes bonecos de neve. Quando voltamos para casa trazemos algumas canecas com gelo em flocos para comermos com geléia de frutas depois da ceia de natal. Dizem, na minha terra, que qualquer pedido feito enquanto se come esta sobremesa especial, será atendido prontamente pelo Papai Noel.
            O menino ouviu as explicações da avó em silêncio e, no seu mundo infantil, começou a imaginar como seria ter seus pedidos atendidos prontamente. Mas, aos oito anos Mathias já havia percebido que Papai Noel só existia em filmes. A vida real era bem diferente para ele.
            Desde a morte do pai, o menino e sua mãe foram viver com a avó, pois o pai não havia deixado condições para a família sobreviver. A mãe do menino trabalhava em uma padaria do bairro, fazendo turnos de doze horas ao dia. Quando voltava para a casa, o filho já estava dormindo. No outro dia, a mãe saía tão cedo para ir ao trabalho que, quando acordava para ir à escola, o menino arrumava-se correndo e, no caminho, passava na padaria para ver a mãe durante alguns minutos. Lá, a mãe lhe dava um copo de chocolate quente e um pãozinho com manteiga passado na chapa. Cortesia do Seu Álvaro, o dono da padaria. Contente, o menino beijava a mãe e corria para a escola.
            Já estavam no final de ano e a escola preparava a festinha de despedida dos alunos. Dona Madalena, a mãe do Mathias,  havia comprado um bolo na padaria em que trabalhava para o menino levar na escola. Neste dia, o menino não tomou seu café na padaria. Foi direto para a festinha. Sua avó levaria o bolo.
            Quando chegaram à escola, a professora recebeu o bolo das mãos da avó do menino e, enquanto as duas conversavam, Mathias caminhou até os fundos da escola. Lá, havia um bosque  com muitas árvores e alguns brinquedos para as crianças. O menino subiu num galho e, perdido em seus pensamentos, começou a falar consigo mesmo: - Aqui, no meu país, não cai neve e nem tem flocos de gelo. Talvez por isso a maioria dos nossos desejos não é atendida. Mesmo assim, eu vou fazer um pedido e, se não for atendido, isso já acontece todos os anos  mesmo! O menino olhou para a esfera que retirou do bolso do casaco e fechou os olhos para fazer o pedido.
Quando olhou ao redor de si, viu que o sol havia feito um clarão tão intenso no céu, que ficava difícil fixar os olhos naquela luz.  Depois de alguns minutos sem enxergar nada, viu um homem sair daquela luz e vir em sua direção. Por um instante Mathias sentiu medo, mas o clarão era tão reconfortante e o semblante daquele homem era tão familiar, que o menino ficou imóvel esperando que ele se aproximasse. De repente, via diante de si a mais bonita figura de sua vida. Era um homem  forte e muito alto. Suas mãos alcançavam os galhos da árvore até o topo. Tinha a pele limpa e brilhante, os cabelos curtos e vestia uma roupa de soldado.
O homem se aproximou do menino e levantando as mãos em direção ao galho da árvore disse: - Mathias venha comigo!
Sem esperar respostas, imediatamente o homem começou a voar de um lado para outro. Não como as aves que voam deitadas. Voava em pé, com os braços  abertos e os olhos fechados. O menino admirado com tanta beleza e magia daquele instante, disse ao homem com voz trêmula:
- Eu não posso voar, sou humano.
O homem sorriu daquela resposta medrosa e esticando os braços na direção do menino voltou a dizer: - Você pode voar Mathias, pode fazer o que quiser. É só você acreditar no que lhe foi dado de presente pela natureza. Você não voa com os seus pensamentos?
Receoso, o  menino segurou nas mãos daquele homem e fechando os olhos, começou a sentir o vento bater em seu rosto. Estava voando. Quando abriu os olhos, viu passar por debaixo deles a escola, a casa onde morava, o bairro, a cidade, árvores, campos, montanhas e, em questão de segundos, viu que voavam por cima do mar.
Estavam tão perto das ondas que podiam ouvir o barulho da água em movimento. De repente, o menino sentiu o barulho das águas entrando nos seus ouvidos. Apavorado, tentou alcançar o amigo e pedir-lhe socorro. O homem, ao perceber a angústia do menino, segurou no seu braço e disse: - Não tenha medo, estamos dentro do mar.
Aos poucos, a luz que refletia na superfície da água dava lugar a um azul esverdeado, ficando cada vez mais azul conforme iam descendo para o fundo. Desciam em pé, com os braços abertos, assim como voavam. O menino ficava se perguntando como ele poderia estar dentro da água sem se afogar, mas a beleza daquele instante era tão grande, que não tinha coragem para interromper aquela visão maravilhosa para perguntar ao amigo.
As algas esbarravam nos seus pés, mas os peixes embrenhavam-se por elas como se tivessem abrindo caminho para que eles passassem e os animais marinhos saudavam ao homem como se fossem velhos conhecidos.
De repente, viu a sua frente, uma enorme baleia que entoava seu canto triste. Não que o canto das baleias seja triste, é uma característica da espécie, mas naquele dia, era realmente triste. Sentindo as dores do parto, quase não conseguia subir à superfície. O filhote estava atravessado no seu ventre e não poderia nascer. Morreriam mãe e filho.
O amigo misterioso aproximou-se do animal e chamou o menino:
- Mathias, ajuda-me!
Colocaram as mãos sobre a mãe e, imediatamente o menino pode ver as entranhas do animal e o filhote lutando pela vida. Como  num passe de mágica, todos os órgãos do animal estavam expostos na frente do menino. Dava para ver o coração pulsando rápido, enquanto a mãe se debatia tentando conseguir oxigênio.
- Mathias, disse o homem, vire a cabeça do filhote para o teu lado esquerdo enquanto eu acalmo a mãe. Dizendo isto, o homem soprou na boca do animal um jato de ar quente. Imediatamente  a mãe aquietou-se e o filhote nasceu.
Maravilhado, o menino perguntou ao homem como poderia ser aquilo. E o amigo lhe respondeu: - É um presente, Mathias! – Como você acha que os animais têm seus filhotes sozinhos nas matas ou no mar, como acabamos de ver? -  Como acha que as plantas se multiplicam discretamente e todos os seres vivos sobrevivem apesar dos danos causados pelo homem? - Porque há seres como nós, auxiliando-os de dia e de noite. A natureza nada mais é do que um conjunto de vidas trabalhando juntas continuamente. Os homens recebem presentes todos os dias, mas não percebem! Dizendo isto, chamou o menino para fora da água.
Em poucos minutos, Mathias e o amigo estavam dentro de um barco que misteriosamente aparecera por lá. O menino tinha muita coisa para perguntar ao homem: de onde ele veio, com quem vivia e como se chamava. Mas antes que o menino abrisse a boca, o homem apontou para uma ilha e disse: - Vê aquela casa, Mathias? O menino disse que sim com a cabeça. – Lá, mora um casal de velhinhos com mais de oitenta anos. Faz quarenta e cinco anos que este casal espera receber um presente. Dizendo isto, o homem remou o barco em direção à ilha. O menino então perguntou: - Por que não vamos voando como fizemos ainda há pouco? Chega mais rápido!  E o homem sorrindo, respondeu ao menino: - Alguns presentes demoram mais para chegar. E continuou remando até a ilha.
Assim que desembarcaram, Mathias percebeu que o homem tinha ficado com uma estatura normal. Seu rosto era de um pescador comum. Uma pessoa de aspecto oriental. O menino não se conteve e perguntou: - Onde nós estamos? Japão, China ou o quê?  E o homem que sempre achava graça nas perguntas do menino lhe disse:
 - Estamos em Honshu. Venha comigo.
O menino acompanhou o amigo e, em pouco tempo, estavam em uma espécie de mercado de peixes. O cheiro daquele lugar exalava um ar quente com forte odor de vísceras dos pescados. O amigo foi até uma sala, nos fundos do mercado, onde havia muitos mapas em cima de uma  mesinha. Um homem observava aqueles mapas e enquanto rabiscava alguma coisa num deles, o amigo misterioso colocou as suas mãos nos ombros daquele homem e olhou fixamente para a mesa. Depois de alguns minutos, os dois amigos saíram do mercado sem serem notados.
Caminharam em direção à casa dos velhinhos e depois se sentaram numa pedreira em  frente ao mar.- Não vamos chamar o casal? Perguntou Mathias. – Não será preciso, o presente não vai demorar a chegar.
Enquanto o homem respondia ao menino, o pescador que estava no mercado olhando os mapas sobre a mesa, veio correndo em direção a casa dos velhinhos. Quando  chegou, começou a bater na porta com força. – Abra Senhor Mioshi, eu tenho notícias para o senhor! - O navio foi encontrado!
Em alguns minutos, um homem franzino abria a porta e saia da casa. Mal podia andar. O mensageiro, então, abraçou o velhinho e começou a repetir a notícia:                 
-Encontrou o navio, Senhor Mioshi.  - Eles voltarão para a casa!
O amigo misterioso virou-se para o menino que estava observando sem entender nada e começou a explicar-lhe:
- Há mais de quarenta e cinco anos, Seu Mioshi e sua esposa Kotoe esperavam receber notícias de um navio afundado durante a segunda guerra mundial, nas águas do oceano pacífico. O filho deste casal estava no navio que afundou. Durante este tempo, muitas expedições foram feitas no fundo das águas pela Marinha, mas o navio não fora encontrado. No navio estavam duzentas e vinte pessoas. Todos os familiares destas pessoas esperam por seus filhos, maridos, parentes. Daqui a alguns dias irão recebê-los de volta e o casal de velhinhos irá receber seu presente.
- Mas como pode ser um presente? Indagou o menino. – É uma pessoa morta!
- Não é apenas uma pessoa morta, Mathias, é o filho deles. Um presente  muito precioso. Você não viu o presente que demos para a baleia? Entregamos o filhote para ela e para o mundo. Veja a simplicidade em que vive este casal. Não pediram riquezas para si, nem almejaram poder ou sucesso. Pediram apenas o que lhes é de direito. O presente que pediram é que o filho voltasse para junto deles. O rapaz foi mandado para a guerra junto com milhares de outros homens. A maioria nunca mais voltou para a casa. Fazer guerra, Mathias, é o degrau mais baixo que pode descer um ser humano. Faz-se guerra por muitas razões, mas o verdadeiro motivo está na ambição. A guerra tira a paz, tira a esperança, separa famílias inteiras e forma feridas na carne e na alma das pessoas.
Quando o homem acabou de falar, Mathias sentiu novamente o barulho das águas nos seus ouvidos. Estavam entrando no mar. Desta vez, o menino acompanhou o amigo até o fundo das águas sem nenhum receio.
- Aonde vamos? Perguntou o menino. - Vamos para a casa? O menino queria contar para a sua mãe e avó tudo o que tinha acontecido naquele dia. Toda a sua aventura com o novo amigo.
- Não, nós vamos ver o navio. Você quer ir para a casa?
- Não, também quero ver o navio; vamos depressa!
O amigo começou a rir da disposição e energia daquele corpo infantil. Quando deu por si, estava sendo puxado pelas mãos do menino.
- Calma Mathias,  nós já estamos chegando!
Quando se aproximaram, puderam perceber que havia uma movimentação de pessoas em volta do navio. Muitos homens estavam parados, em pé, todos alinhados em filas de dez pessoas formando um pelotão de soldados uniformizados. Assim que chegaram mais perto do navio, todos os soldados abaixaram a cabeça, num cumprimento à moda dos orientais, agradecendo ao homem e ao menino.
Admirado, Mathias disse ao amigo:
- Puxa, a Marinha veio rápido, não é mesmo? E o homem riu da sua inocência de menino.
Depois que eles saíram da água, o homem levou o menino de volta para a casa e, ao despedir-se o amigo lhe advertiu:
- Descanse bem esta noite, porque amanhã temos muitos lugares para ir.
O menino despediu-se do amigo e entrou correndo para dentro da casa. Estava ansioso para contar as suas aventuras, mas não encontrou nem a sua avó e nem a sua mãe. E quando sentou no sofá para esperá-las, estava tão cansado que adormeceu rapidamente.
No dia seguinte, quando acordou, foi até o quarto de sua mãe e não a viu na cama. Pensou em ir até a padaria e falou consigo mesmo:
- Ela já foi para o trabalho. - Vou me arrumar sem muito barulho para não acordar a minha avó.
Mas quando o menino entrou no banheiro para tomar um banho, pois havia adormecido do jeito que voltara para a casa, levou um susto ao olhar-se no espelho. Tinha os cabelos penteados, vestia roupas limpas e muito bem passadas. Seu corpo estava limpo e cheiroso como se tivesse acabado de sair do banho. Olhou para as suas mãos e pode perceber que elas, assim como o seu rosto, brilhavam como os do seu amigo misterioso. Como já estava se acostumando com as aventuras ao lado do seu amigo, Mathias ficou feliz em parecer-se com ele. Pensou novamente em ir até a padaria e ver a sua mãe, mas quando saiu o homem já o esperava.
- Bom dia, Mathias! Você não poderá conversar com a sua mãe agora. Temos muitos lugares para visitar. Você se importa? Se quiser, você fica e eu vou.
O menino sentia falta da mãe, mas nunca havia se sentido tão feliz  como na companhia daquele amigo misterioso. Não pensou duas vezes em aceitar o convite do amigo. Quando voltasse, iria procurar a mãe e a avó. Tinha muitas dúvidas a respeito do seu amigo, mas as horas que passavam juntos eram tão agradáveis que ja não se importava mais em saber de onde viera. Afinal de contas, quem teria um amigo que sabia voar? Sem dizer uma palavra, Mathias o seguiu na nova aventura.
Enquanto voavam, o menino pode observar que o homem fechava os olhos e imediatamente seus corpos viravam-se para o destino desejado.  Apenas com a força do pensamento do amigo, o vento mudava a direção e os animais davam-lhes passagem. Quanto mais tempo passavam juntos, mais o menino admirava a inteligência do amigo.
- Aonde vamos? Perguntou.
- Primeiro, vamos por aqui. Temos um trabalho muito importante que não pode esperar muito tempo.
Estavam voando pela mata e conversando animadamente, quando de repente, o homem percebeu uma movimentação abaixo deles. Mathias não podia ver o que era, mas quando se movimentavam, as moitas de capim iam se abrindo rapidamente no chão como se alguém estivesse passando por elas. Era uma passagem pequena como se fosse para passar um animalzinho ou uma criança. Aquele ser os estava seguindo.


O homem parou de voar e disse ao menino:
- Mathias, preste atenção: continue voando em direção ao leste e, não importa o que aconteça, voe até chegar a uma clareira. Lá, está um homem deitado no chão, com algumas pessoas ao redor dele. Espere por mim naquele lugar. Ninguém poderá vê-lo, mas você pode ver todas as pessoas. Não deixe que ninguém se aproxime do homem. Você terá forças para impedir. Saiba usá-la e não tenha medo. Agora vá!
Pela  primeira vez desde que se conheceram, o menino percebeu um semblante de raiva no rosto do  amigo. Enquanto voava em direção ao leste, o menino começou a ouvir uivos e grunhidos  de cachorros e, pode ver muitos galhos de árvores se quebrando em frente ao amigo, como se alguém os tivesse atirando contra ele. Nesta hora, toda a mata escureceu. Seu amigo voava de um lado para outro como se estivesse impedindo alguém de seguir o menino.  Neste instante, travou-se uma batalha no meio da mata. Mathias sentiu medo,  mas não podia deixar de fazer o que o amigo havia lhe pedido.
O menino percebeu que aquele ser não queria que eles chegassem até ao homem e, mesmo querendo ficar ao lado do amigo, sabia que precisava chegar logo até a clareira.
Voou rapidamente e, quando chegou, viu que eram pessoas ao redor do homem e que estavam pressionando o seu corpo contra o chão para que fosse esmagado. O menino colocou-se de pé em cima daquele homem e com uma força sobrenatural empurrou aquelas pessoas para longe.
Não eram pessoas comuns. Eram seres de baixa estatura, com rostos e corpos deformados. Seus braços eram cartilagens finas ligadas a membranas como se fossem asas,  mas não conseguiam voar como eles. Voavam a poucos centímetros do chão fazendo um barulho de muitos cachorros uivando. Suas babas eram corrosivas e danificavam a vegetação quando pingavam. Não tinham pés, apenas um esboço de pata de animal. Quando estavam no chão, arrastavam-se deixando um rastro de limbo mal cheiroso para traz, pois o cheiro daqueles seres era insuportável.
O homem caído no chão estava com uma aparência cadavérica, mal podia respirar. As compressões feitas por aqueles seres contra o peito daquele homem abalaram ainda mais o seu frágil estado de saúde. Tinha o rosto e as mãos queimadas pelas babas corrosivas daqueles seres e o menino percebeu que precisava tirá-lo dali o mais rápido possível.
Mathias levantou o homem em seus braços de menino e levou-o até o amigo que, enquanto lutava, dava instruções ao  menino:
- Mathias, leve este homem até o hospital mais próximo que encontrar. Ele não pode morrer, pois se perderá para sempre. Vá depressa que eu o encontrarei no hospital.
- Mas e aqueles bichos? Eles o pegarão.
- Não se preocupe Mathias, eles não podem sair da mata. São seres condenados a viver aqui.
O menino saiu voando rapidamente com aquele homem nos braços e, enquanto voava, lembrou-se da maneira como o amigo se deixava guiar. Fechou os olhos, pensou no hospital onde sua mãe sempre o levava para consultas e, deixou que a força do seu pensamento encontrasse o caminho.
Em poucos minutos, Mathias estava entrando pelas portas do Hospital chamando por socorro. Alguns funcionários vieram correndo ver o que acontecia, pois nunca tinham visto uma criança conseguir carregar um homem adulto com tanta facilidade.
Examinando aquele homem, perceberam que ele havia sido picado por cobra e estava com inúmeras queimaduras pelo corpo. Quando os funcionários voltaram até a entrada do hospital para falar com o menino, não o encontraram mais.
Mathias, assim que deixou o homem no hospital, voltou correndo para a mata  ajudar o amigo. O homem deu a ele uma espada brilhante que sempre trazia  presa na cintura.  Aqueles seres horrorosos avançaram contra o peito do menino com as pequenas garrinhas presas nas asas. Como  não  conseguiam voar alto, Mathias e o amigo subiram até as partes mais altas das árvores e de lá davam rajadas em direção a eles cortando-les os corpos com as espadas. Aos poucos, os uivos e grunhidos daqueles seres foram diminuindo até parar totalmente. Vendo que aquela pequena batalha havia terminado, o amigo chamou o menino para irem ao hospital.
Quando chegaram, o amigo disse ao menino para ele esperar pelo lado de fora do hospital. Iria ver o estado de saúde daquele homem e voltaria em seguida.
Quando voltou, disse ao menino:
- Ele não morrerá.
- Aquele homem, Mathias,  hoje recebeu uma nova chance de vida. Sempre foi uma péssima pessoa. Mentiroso, velhaco, ladrão e enganador. Suas más qualidades o reprovam. Mas, sua mãe, uma mulher honrada e generosa, sempre pediu por ele. Aqueles seres horríveis com quem lutamos ainda a pouco, queriam aquele homem.   
- O que acabamos de fazer foi presentear aquela mãe. Espero que aquele patife aproveite a sua nova chance.  Falando em presentes, temos  que andar rápido. Vamos a um lugar muito especial.
Enquanto se dirigiam ao lugar pretendido, Mathias contou ao amigo como tinha feito para chegar rápido ao hospital:
- Eu já fiquei olhando você enquanto voamos e por diversas vezes, eu o vi fechar os olhos e nossos corpos tomarem o rumo certo, até chegarmos aonde deveríamos ir. Então, como eu queria chegar  bem rápido, mas não sabia o caminho, fechei os olhos e pensei no hospital que  a minha mãe sempre me leva. Em poucos segundos eu estava lá.
O amigo olhou para o menino e, sorrindo falou para ele:
- Mathias, você está crescendo  muito rápido. Acho que vou deixá-lo fazer a próxima visita sozinho. Vou levá-lo até lá e depois você fará o resto. É bem fácil.
Os dois amigos entraram numa pequena cidade.  Parecia uma vila estrangeira. Tinha animais andando soltos pelas ruas misturando-se com muitos homens armados.   As pessoas usavam túnicas compridas e andavam apressadas, olhando para todos os lados. Fazia um calor escaldante até na sombra. Todas as pessoas tinham a pele queimada pelo sol. As casas eram apenas ruínas e as ruas eram cobertas de pedras e muita poeira. Não havia prédios de comércio na cidade. Algumas pessoas ofereciam verduras, roupas, chinelos, aves e muitas quinquilharias, apregoando-os boca a boca.
   Andando por uma ruazinha estreita, os amigos chegaram até uma propriedade que parecia ser uma escola. Era uma casa grande, bastante danificada, sem vidros nas janelas. As paredes tinham muitos buracos e a maioria dos cômodos não tinha portas. Tinha um imenso quintal de terra e pedras onde brincavam muitas crianças.
 Entraram naquele lugar e ficaram observando o que acontecia. Uma menina franzina carregava um balde de água para dentro do prédio. Parecia estar muito cansada e, quando voltou para pegar outro balde, não aguentou o peso e o deixou cair. Um homem magro que olhava as crianças no pátio, aproximou-se da menina e, deu-lhe um golpe tão forte que a menina caiu sobre as pedras do pátio e não se levantou. Quando o homem se preparava para dar-lhe outro golpe, o amigo misterioso deu um salto em sua direção e, apertou-lhe o braço quebrando-o na mesma hora. O homem, aos gritos, saiu correndo para dentro da casa, sem saber como havia feito aquele ferimento.
- Mathias, disse-lhe o amigo. Traga o presente para a menina.
- Que presente?
- Este que está no seu bolso. Traga-o para ela.
O menino bateu as mãos nos bolsos e retirou um pacote de biscoitos de um deles. Ficou olhando para o amigo sem saber como aquele pacote foi parar no seu bolso sem que ele notasse. O amigo que já estava rindo, disse ao menino:
- Traga o presente, Mathias!
Enquanto o amigo ajudava a menina a se levantar do chão, Mathias levou o pacote de biscoitos e o entregou para ela. A menina sorriu.
Imediatamente formou-se ao redor da menina uma turma de crianças famintas esperando receber um biscoito. A menina, muito tímida, abriu o pacote e entregou alguns biscoitos para aquelas crianças que saíam pulando contentes. Pegou o último biscoito que sobrou no pacote e o colocou na boca sorrindo de alegria.
Ao ver aquilo, o menino voltou a bater as mãos nos bolsos procurando mais algum pacote. Não havia mais nenhum. Então, olhou para o amigo com súplica.
O homem, que já conhecia os pensamentos do menino, disse-lhe para pegar mais um pacote. Mathias  fez sinais com a cabeça e com as mãos dizendo para o amigo que seus bolsos estavam vazios.
 Mas quando o menino colocou as mãos nos bolsos novamente, começou a retirar muitos pacotes de biscoito e a jogá-los para o alto.
- Mágica, mágica! Gritavam as crianças.
Quanto mais o menino retirava, mais pacotes apareciam nos seus bolsos e, quando as crianças já estavam fartas, a mágica acabou.
Ficaram naquele lugar por algum tempo vendo as crianças brincarem. Mathias sentou-se ao lado do amigo e começou a perguntar:
- Como pode uma pessoa pedir de presente um simples pacote de biscoitos?
- Todas as pessoas Mathias, pedem de presente o que elas não possuem. Algumas pedem até o que já têm, e mesmo assim, não se satisfazem. Querem sempre mais. Pedem ouro e palácios, amor, iates, aviões, saúde, poder, viagens, fama, brinquedos, carros, casas, companheiros, filhos, pai, mãe; outras pedem sabedoria, sangue, pedem órgãos, leite, comida, remédios e até mesmo a morte, a guerra, a derrota de alguém e um simples pacotinho de biscoito como você acabou de ver. As pessoas pedem as mais variadas coisas que se pode imaginar.
- Nem todas são atendidas, não é mesmo? Perguntou o menino.
- Não. Algumas coisas o homem faz por conta própria mesmo. Este país está em guerra há muitos anos e trouxe conseqüências terríveis para este povo. Estas crianças que visitamos são todas órfãs, por causa da ambição de seus opressores.
Olhando para o tempo, o amigo disse ao menino:
- Vamos Mathias, temos muitos lugares para ir ainda hoje.
Os amigos se despediram das crianças, prometendo voltar mais vezes e, partiram para outro lugar.
O homem levou o Mathias para ver alguns lugares da terra que ainda são quase inexplorados pelas pessoas. Foram até o cume das montanhas mais altas, passearam pelas geleiras, entraram na cratera de um vulcão e voaram tranquilamente por cima das savanas, planícies, desertos e florestas observando os animais.  
Quando pensavam num determinado lugar, os amigos fechavam os olhos e seus corpos tomavam a direção certa. O menino, que nunca tinha saído da sua cidade, agora num piscar de olhos, visitava lugares tão distantes e tão difíceis, que nenhum viajante do mundo, por mais condições que tivesse, poderia chegar.
- Venha comigo, Mathias! Disse-lhe o amigo: - Vou levá-lo para visitar a terra da sua avó.
- Você conhece a minha avó?
- Conheço.
- E a minha mãe, você conhece?
- Claro que sim. Conheço muito bem.
- A minha mãe é aquela que trabalha na padaria da esquina.
- Eu sei, já visitei a padaria muitas vezes.
- E você já conversou com ela?
- Muitas vezes, também.
Enquanto conversavam, o amigo chamou o menino:
- Venha Mathias, chegamos.
Os dois amigos embarcaram num trem e começaram uma viagem pela Rússia.
- Esta é a terra da sua avó. Disse o amigo.
- Estamos na ferrovia mais longa da terra. Liga a Rússia européia até o leste, além da China e Mongólia.
Mathias olhava pelas janelas do trem e admirava as mesmas paisagens contadas pela avó. Via os campos cobertos de neve e muitos cavalos selvagens correndo por eles. Viu o lago Baikal mais profundo do mundo, com 1500 metros de profundidade e, no alto das montanhas, viu as pedras de Komi cobertas de neve.
- São pedras com 42 metros de altura que tem mais de 200 milhões de anos. Disse o homem ao Mathias.
- Vamos descer do trem e ver mais de perto.
Nas montanhas siberianas, viu fumaças saindo da terra. Eram fumaças que saiam de fontes de águas quentes vindas do subsolo.
            - Estes jatos de águas que saem da terra chamam-se Gêisers. Veja o arco-íris que se forma nas montanhas, Mathias.
O menino maravilhava-se com aquela paisagem. Quando olhava para o alto das montanhas cobertas de gelo, lembrava-se dos bolinhos cobertos com flocos de açúcar que eram vendidos na padaria onde sua mãe trabalha.  Estavam no Monte Elbrus, o pico mais alto da Rússia.
- Agora Mathias, vamos para a cidade. Quero mostrá-la a você. Os amigos fecharam os olhos e seus corpos começaram a voar. Mathias podia sentir o vento frio passado pelo seu rosto. Sentia-se leve como aqueles flocos de gelo que caíam nas montanhas. Deixava que o vento o conduzisse.
Chegando na cidade, entraram numa praça com muitas estátuas e uma igreja parecida com um castelo de contos de fadas. O prédio tinha torres com abóbadas redondas multicoloridas.
- Esta, é a Catedral de São Basílio. Bonita, não? Dizia o homem.
O menino balançava a cabeça em sinal afirmativo. Não sabia onde olhar. Tantas flores em pleno inverno, estátuas altíssimas, tudo era novidade para ele. Tinha até um palácio. O palácio de Peterhof.
Foram até uma exposição de esculturas no gelo. Viram animais esculpidos, pessoas, casas, castelos. Pareciam feitas de cristal que brilhavam com a luz. O amigo segurou nos braços do menino que se perdia no encantamento das imagens e, em poucos minutos estavam em uma cidade chamada Pskov.
- Esta é a cidade da tua avó, Mathias. E esta era a casa onde ela morava. Está um pouco diferente, pois com tantas revoltas que tiveram por aqui depois da segunda guerra mundial, a casa foi danificada e os novos moradores fizeram uma reforma. Mas, vamos até aquele comércio. Quero lhe dar uma coisa.
Entrando naquele comércio, o amigo pediu para o vendedor, duas canecas de geléia e duas colheres. Pagou com notas novinhas e agradeceu ao vendedor.
- Agora Mathias, nós vamos lá fora colocar flocos de gelo nestas canecas para saborear a sobremesa predileta da sua avó.
O menino o acompanhou sorrindo, embora tenha ficado mais confuso ainda. Como o amigo poderia saber qual era a sobremesa predileta da sua avó?
- De onde você conhece a minha avó? Perguntou o menino enquanto comia a sobremesa.
- De lá mesmo, do bairro onde você mora. Eu a conheço há muitos anos, mesmo antes de você nascer.
O menino, então, não se conteve e perguntou curioso:
- Como você conhece todo mundo? Você é um anjo? Ou você é um extraterrestre?
O amigo sorrindo respondeu ao menino:
- E se eu for? Você não vai querer ser mais meu amigo?
- Claro que vou! Ninguém tem um amigo que voa como eu tenho. Eu serei sempre seu amigo. Irei encontrá-lo todos os dias. Quero ajudá-lo nas visitas que faz. Nunca me senti tão livre e tão feliz como agora ao teu lado.
O amigo abraçou o menino e, sem responder nada, continuou a saborear os flocos de neve.
Mathias colocou uma colherada na boca e deixou que o gelo derretesse na língua misturando-se com o sabor da geléia. De vez em quando, vinha em seu pensamento à imagem da sua avó. Ela poderia ter se sentado no mesmo lugar que ele quando era criança. Pensava no que  iria dizer, quando ele contasse que comeu a mesma sobremesa e na mesma cidade em que ela morou antes da guerra. Com certeza ela não iria acreditar.
Enquanto os amigos comiam a sobremesa, aproximou-se deles um senhor não muito idoso. Tinha muitos cabelos brancos, mas o rosto jovem. Aparentava ter entre trinta e quarenta anos. Era magro e tinha o corpo encurvado, desgastado pela doença. O homem levava uma bengala nas mãos para apoiar-se enquanto andava com dificuldade. Com suas mãos trêmulas pendurou a bengala no braço, aproximou-se do amigo misterioso e começou a passar-lhe as mãos nos ombros enquanto lhe falava:
- Não demore amigo! Estou esperando todos os dias.
O amigo  misterioso olhou para aquele homem e, apenas balançou a cabeça em sinal de afirmação. Então, o homem  doente olhou para ele sorrindo e, em seguida, continuou andando.
Assim que terminaram a sobremesa, Mathias perguntou ao amigo:
- Quando será a visita a este homem?
- Hoje mesmo.  Disse ao menino.

Depois, o amigo voltou-se para ele e falou:
-Vamos devolver as canecas ao vendedor e vamos embora. Vou levá-lo de volta.
- Mas eu não vou a essa visita?
- Não, Mathias! Precisa voltar para casa e descansar.
- Mas ainda é cedo, eu não quero voltar agora. Sou seu ajudante e você precisa de mim, não  precisa?
O amigo não respondeu nada, apenas sorriu.
Por mais que desejasse voltar e encontrar a sua mãe e avó, o menino sentia um nó na garganta toda vez que o amigo falava em levá-lo para casa. Quanto mais tempo passavam juntos, mais o menino se apegava ao amigo.
Mathias era uma criança alegre e muito inteligente, mas passava muito tempo sozinho. Tinha poucos amiguinhos na escola e, na rua onde moravam, todos os garotos eram bem mais velhos que ele. Sua melhor amiga e confidente era sua avó. Uma senhora com mais de setenta anos.
Já fazia cinco anos que seu pai havia morrido. O menino era muito novo e tivera pouco contato com o pai. Já nem se lembrava de como era o seu rosto. Conhecia o pai apenas pelas fotografias guardadas por sua mãe. Sentia falta da presença masculina ao seu lado, mas agora, havia encontrado no amigo misterioso a companhia agradável que sempre desejou, por isso não queria perdê-lo.




             





A festa

A FESTA

João Batista era um sapo artista
Pulava e dançava em festas
Tocava viola e cantava
Para os bichos da floresta.

Seu amigo de baladas
Era a cigarra Guilhermino
Que, como a uma serenata
Tocava o seu violino.

Nas festas da floresta
Nunca podia faltar
João Batista & Guilhermino
Uma dupla popular.

Se a festa fosse de dia
Todo mundo enchia a pança
Porque vinha a Dona Anta
Para fazer a comilança.
Se a festa fosse de noite
O vagalume trazia a filharada
Para sentar numa jibóia
Que ficava pendurada
E iluminar a festa
De maneira arrojada.

A festa estava bombástica
Na casa da Dona Cotia
Porque bem naquele dia
Fazia frio e chovia.

Juca Urubu foi barrado na porta
E o lagarto Sebastião
Um dizia: - É preconceito!
O outro gritava: - É perseguição!

Mas a  explicação foi dada
E os pássaros em revoada
Davam queixa ao macaco capitão:
- Vão comer os nossos filhotes!
O urubu ultrajado
Sentindo-se injustiçado
Tratou logo de falar:

- Fiquem vocês sabendo
Que eu só como bicho morto
Bicho vivo não me interessa
Não me aguça o paladar
                   Por isso, abram a porta
Que eu quero festejar.

Sertanejo, pagode, jazz
Cantava-se de tudo
Pois na festa da floresta
Ninguém ficava mudo.

Quando amanheceu
A bicharada adormeceu
Pois estava bem cansada
De toda aquela noitada.

O sapo amontoou-se num canto
Nem quis saber de pular
Tinha festado tanto
Só queria descansar.

Porém, bem naquele dia
Quando a floresta dormia
Veio um grupo de cientistas
E levaram o João Batista.

Foi um choque na floresta
Todo mundo revoltado:
- Cadê o João para a festa?
- Cadê o João para o rebolado?

Um curumim Bororo
Amigo da bicharada
Seguiu os passos dos homens
E chegou a uma pousada.


Olhou pela janela
E ficou admirado
Era um laboratório
Onde o João estava trancado.

- O João corre perigo
É melhor não fazer nada
Vou sair daqui correndo 
E avisar a bicharada.

Os bichos da floresta
Num ato de instinto e esforço
Organizaram uma fuga
Em meio a um alvoroço.

A onça enfurecida
Demonstrou o seu protesto
Invadiu o laboratório
Imaginem só o resto.


Os macacos entraram pelo telhado
Foi uma briga daquelas
Os tatus por um buraco
Os quatis pela janela.

Até o bicho-preguiça
Ficou esperto naquela hora
Pegou o sapo depressinha
De  dentro da gaiolinha.

Uma nuvem de pernilongos
Foi fazendo o seu trabalho
Tratou de mostrar aos homens
Onde ficava um atalho.

E para comemorar a façanha
Dos bichos dando um olé
Ali mesmo na pousada
Começou um arrasta pé.
                                                                    Autora:  Ironi Lírio